Bem-vindos a mais uma edição da UC de Multimédia e Arquiteturas Cognitivas. Espero que esta UC vos ajude a questionar alguns aspetos essencias que, do ponto de vista conceptual, se encontram numa área cinzenta de interseção entre a tecnologia e a educação.
Este blog será o espaço digitial privilegiado desta UC. Por esse motivo, quem ainda não está registado no Sapo Campus deve fazê-lo para poder participar.
A primeira sessão presencial será na próxima 6ª feira, dia 10.02, às 9h30, na sala 21.1.24 (sala de reuniões do labs.sapo no Departamento de Comunicação e Arte).
Para já, e como início das hostilidades, gostaria que vissem o vídeo abaixo e que partilhassem a vossa posição pessoal sobre o que é discutido (tendo em conta a vossa experiência, i.e., sem consultas para fundamentar o que vão escrever), sob a forma de um comentário a este post .
Boa tarde!
Parece que sou o primeiro a deixar o meu comentário.
A entrevista fala da possibilidade de nos tornarmos superficiais pelo uso da internet.
Segundo o autor entrevistado, a Internet, implicando competências multitarefa, limita o conhecimento concetual mais profundo, a nível do pensamento contemplativo, introspetivo e reflexivo, os quais apenas emergem quando se dirige a atenção para um objeto/acontecimento/ideia.
Partindo daquilo que sei a nível de neurofisiologia, Nicholas Carr poderá não estar muito longe da verdade. Nos últimos anos muito do que se sabia a nível de cérebro foi completamente revolucionado. O tecido nervoso não é uma massa perdulária de células, rigidamente ligadas. As células nervosas são dinâmicas e flexíveis, pelo que podem estabelecer novas conexões nervosas e novas sinapses, em função dos estímulos que recebam, em distintos ambientes.
Deste modo, concordo que a utilização contínua e repetida da Internet, dispersando a atenção do utilizador através de múltiplos ambientes virtuais possa privilegiar determinadas conexões neurais, reduzindo outras. Isto significa forçosamente que a Internet mude fisicamente os nossos cérebros, adaptando-se ao ambiente para o qual está a ser operacionalizado (graças ao processo de plasticidade cerebral). As estruturas cerebrais envolvidas em tarefas repetidamente postas em ação, tornam-se mais desenvolvidas que as áreas do cérebro menos ativadas.
A entrevista é, contudo, bastante redutora. Por um lado, porque é conduzida com o propósito de fazer rir as pessoas e, por outro, não esclarece que alternativas poderão ser aplicadas para evitar que um utilizador "viciado" na Internet se torne menos superficial. Estou a lembrar-me que o nosso cérebro gosta de diversidade: caminhar na natureza, conviver com os amigos, saltar à corda, correr, cantarolar, escrever com papel e lápis/caneta, fazer desenhos, ler livros, sorrir, irritar-se de vez em quando, também fazem bem ao cérebro e poderão, nesta perspetiva da plasticidade cerebral, criar conexões nervosas que nos tornem menos superficiais.
Não sei se será a Internet por si a tornar-nos superficiais ou se as pessoas superficiais adoram a Internet. Se for o caso, estou em péssimos lençóis, porque adoro a Internet!!! :D
Rui Soares
De
lpedro a 6 de Fevereiro de 2012 às 16:07
Obrigado pelo comentário Rui! A entrevista é, de facto, redutora. Nas aulas vamos aprofundar mais alguns destes aspetos :)
A questão da superficialidade ser analisada num meio onde as coisas são contadas ao segundo (mundo da televisão), não deixa de ser sintomático dos nossos tempos! O Fast food surgiu por necessidade e pode-se considerar que se alastrou para outras áreas!
Quanto à pretensão do autor de que a internet nos está a "estupidificar", lembro-me de que desde há muito tempo oiço falar que a educação faz algo semelhante às novas gerações! Não sei até que ponto estes fenómenos se estendem e concordo em parte com as posições que alguns defendem, mas devemos salvaguardar uma certa distância! Acontecem mudanças, sempre aconteceram e vão acontecer, sendo preciso avaliar as "perdas" e os "ganhos" para ter um balanço mais fiável da evolução dos tempos.
Olá a todos!
Ontem vi o recado, mas ainda andamos envolvidos nas tarefas das Web 2.0...
Eu creio que há motivos de preocupação relativamente à capacidade para selecionar e destrinçar a quantidade de informação/desinformação que se produz e reproduz através das redes, à tendência para centrar as atenções na operacionalidade das tecnologias em detrimento dos conteúdos e do que está por detrás delas, à superficialidade a que conduz o saltitar de informação para informação sem a maturar.
Fico admirado com a capacidade que muitos dos meus alunos revelam ao conseguirem fazer várias coisas ao mesmo tempo: falar com colegas, pesquisar na net, ouvir música, receber e enviar mensagens no telemóvel…, mas deixam-me preocupado com a dificuldade que têm em ler e escrever de forma mais aprofundada sobre qualquer tema um pouco mais complexo ou que exija reflexão.
Estou convicto que o problema não está, como nunca esteve, nas tecnologias, mas sim na forma como estas são utilizadas. As virtudes democratizantes da Internet e das suas tecnologias mais recentes, como as Web 2.0, só o são se os contextos em que são usadas o proporcionarem, caso contrário, como muitos têm vindo a alertar, tornam-se instrumentos que potenciam todo o tipo de desigualdades (já as estamos a vivenciar). Como diz Manuel Castelles algures n’a sociedade em rede”, as redes são cada vez mais meios de domínio dos que dominam a economia e conhecimentos sobre os que apenas a sabem utilizar para consumir o que os primeiros concebem com essa finalidade.
Não há outro caminho que não seja o de lutar pela igualdade para todos no acesso à educação integral (conhecimentos específicos e cultura geral, princípios, valores humanistas…). Claro, também justiça na repartição da riqueza criada!
Mas não é este caminho que está a ser percorrido, e isso é que é preocupante. Logo, é um dever nosso, como professores, não ir nesta corrente! E contrariá-la!
Boa tarde!
Várias questões importantes são aqui suscitadas. O Rui explicita bem as implicações, em termos da nossa estrutura mental, do tipo de tarefas que habituamos o nosso cérebro a realizar.
E o Ramísio aborda uma questão fundamental, a dificuldade que os professores sentem em estimular o pensamento profundo ou reflexivo nos alunos de hoje. Creio que esta é uma problemática central com a qual nós professores nos debatemos.
Numa abordagem simplista poder-se-ia argumentar que efetivamente se o recurso à internet ou tecnologias digitais favorece a superficialidade de pensamento e até possivelmente potencia a redução das nossas capacidades de multitarefa, então porquê o uso destas tecnologias? Carr esboça a resposta introduzindo a noção de equilíbrio. Parece-me de facto que este princípio é essencial. E o que me parece preocupante é que tendo as tecnologias digitais revolucionado a forma como temos acesso e podemos gerir a informação por um lado e a forma como comunicamos por outro, tal tem levado a que o nosso sistema educativo frequentemente se revele incapaz de incorporar esta revolução tecnológica, uma vez que ela implica reformulações profundas na forma como se aprende e até mesmo na conceptualização do que se entende por aprender.
Face a esta incapacidade o que acontece é que os sujeitos usam estas tecnologias em contextos extra-escolares, por sua conta e risco, revelando-se assim o sistema educativo incapaz de fomentar este princípio de equilíbrio, ao não fazer um uso adequado e profícuo das tecnologias digitais. Parece-me que esta é uma cisão fundamental que não está a ser devidamente tratada e reconhecida.
De
lpedro a 7 de Fevereiro de 2012 às 22:17
Obrigado pelo vosso contributo. Alguns dos aspetos que mencionam - responsabilidade do professor, equilíbrio nos usos - são, de facto, importantes e iremos problematizá-los na sessão presencial.
De
lfaneves a 7 de Fevereiro de 2012 às 23:30
Boa noite a todos,
O vídeo, como produto oriundo da televisão, pretende primariamente vender o livro. Ao autor caberá destacar a vertente provocatória do texto que redigiu e com isso cativar a atenção dos telespectadores. Ao apresentador um papel mais provocatório. Mas isso não invalida o que foi apresentado e defendido.
De facto, é uma preocupação crescente e quem lida habitualmente com a tecnologia tem aqui um desafio, uma projeção do que poderá ser o nosso comportamento e em que nos poderemos tornar. Limitados? De que forma?
Mas o problema não está na plataforma, no meio, mas sim na forma como a vemos e utilizamos. Vivemos, como aqui já foi dito, num mundo cada vez mais instantâneo, imediato em que a tão aclamada produtividade é também medida na capacidade de multitarefa. Sabe-se que não “funcionamos” em multitarefa mas estamos sempre a tentar e isso cria hábitos complexos e difíceis de reverter.
Concordo com a Anabela quando se reforça a ideia de equilíbrio. Mas numa fase em que o mundo está em constante e acelerada mudança colocam-se novos desafios. Perceber a potencialidade da ferramenta ajuda na sua melhor forma de utilização.
A psicologia diz que não há vícios, há viciados. E na Internet também há a potencialidade para comportamentos aditivos que condicionam as nossas capacidades cognitivas pois focalizamos cada vez mais nas ferramentas e na novidade e não no aprofundar dos temas e na reflexão (veja-se o exemplo apresentado no vídeo do reddit). É a tecnologia “pervasiva” na sua vertente menos positiva.
Na área educativa esta problemática é cada vez mais visível e desafiante para a comunidade.
Deixo aqui uma “provocação”:
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.”
(…)
Luís de Camões
De
fpcr a 8 de Fevereiro de 2012 às 00:07
Olá a todos!
Partilho da opinião dos colegas quanto ao facto de que o recurso à internet e às tecnologias digitais tem vindo a favorecer o desenvolvimento de atitudes e modos de pensar e de agir que revelam alguma "superficialidade". Aparentemente assim é, no entanto, penso que sempre houve superficialiade em todos os tempos. O que é superficialidade? Talvez a superficialidade salte mais à vista a quem tem um olhar crítico e distanciado, a quem está de fora, olha de cima e para dentro. A mim, por exemplo, é-me cada vez mais difícil ver televisão. A única forma aceitável de a ver é tentar colocar-me no lugar do realizador e tentar apanhar-lhe os "truques" (perceber o porquê dos ângulos, de um plano e não de outro, das cores, das atmosferas criadas, das mensagens subliminares, daquela fotografia, etc) mas mesmo assim é aborrecida. Deste ponto de vista, posso dizer que a televisão, por ex., exibindo na maior parte das vezes vazios de conteúdo para mim, posso afirmar que o contato com ela não me interessa. Resta-me mudar de canal, tenho essa capacidade e uso-a, e procurar algo melhor ou desligar. Com a internet julgo que acontece algo semelhante, é uma "montra" onde cada um escolhe o que quer ver/ler/ouvir/sentir/fazer... Mas, talvez devido a um excesso de "ruído", à falta de uma cultura geral sólida e à espécie de anestesia coletiva em que hoje se vive, os alunos (e também os cidadãos em geral) não fazem essa escolha entre o que interessa e o que é "lixo". Também é verdade que nem tudo na vida tem de ser sério, cultural, sisudo, etc, a diversão também deve ter o seu lugar. Por outro lado, é importante considerar que os conteúdos da internet e os meios de comunicação social, em geral, obedecendo a entidades privadas, têm como primeiro objetivo o lucro, ainda que à primeira vista não pareça, logo o que mais importa é a audiência e não a qualidade do conteúdo em si. Esta situação é transversal a muitos campos da contemporaneidade, incluindo a arte. Muitos cidadãos não sabem isto, não querem saber ou não lhes interessa.
Os professores já todos notaram a enorme, diria mesmo aflitiva, incapacidade de os alunos do ensino básico (mais notória) estarem concentrados numa tarefa por alguns minutos. A sua atenção "saltita" por várias coisas/assuntos ao mesmo tempo. Por outro lado, como alguém já referiu, a espessura humana (valores, respeito pelo outro, sentido de ética, etc) parece estar a regredir. Relembro o que ouvi há dias de uma criança de 10 anos, perante a imagem (agora comum) de alguém que estava estendido no chão: "fez game over". Quando questionada disse que não era bem isso que queria dizer. Perante isto, forçosamente temos de pensar que o mundo em que vivemos constrói e condiciona a forma de pensar, de falar e de agir, é um facto.
Não tenho uma visão pessimista nem alarmista em relação à internet e às tecnologias (têm aspetos positivos e negativos, como sucedeu com a invenção da fotografia, do cinema, da BD, da rádio, TV, computador...) mas não tenho dúvidas quanto à necessidade de uma verdadeira educação do olhar, do treino da atenção, de uma formação sólida que permita articular saberes, intenções, escolhas, críticas fundamentadas, etc.
Enfim penso que é uma questão complexa mas pertinente (assim como a articulação deste tema com os mecanismos do cérebro-neurociência).
Fernando Rodrigues, professor de Educação Visual.
Olá a Todos!
Perece que as questões mais pertinentes já aqui foram levantadas pelos meus colegas.
Pessoalmente interessa-me destacar o fator "equilíbrio", pois tudo na vida depende da aplicação dessa proporção. Seja no contexto ambiental, científico, humanístico, relacional, artístico e até no educativo, o estabelecimento de critérios de ação e de avaliação devem pautar-se pelo bom-senso e equilíbrio.
Uma forma de tentarmos integrar as novas ferramentas Web 2.0 de modo eficaz e que não comprometa o desenvolvimento integral do aluno é continuarmos a apostar em problemas cognitivos desafiantes, obrigar a que sejam confrontados com enigmas que potenciem o treino para o questionar, o reinventar e o criar novas formas e caminhos de resolução de problemas, sempre em ambientes propiciadores de concentração e tarefas focalizadas. Esta premissa não colide de maneira nenhuma com a integração das ditas ferramentas de Web social em contexto educativo. Há que tirar partido do melhor que esta nova realidade apresenta e sabê-la gerir, orientar em torno de objetivos bem delineados. Se a internet é apelativa para os alunos , então há que saber integrá-la. A questão não reside no usar ou não usar (pois isso , por mais que nos custe aceitar, foge-nos completamente do nosso poder de decisão) , mas sim no "como" usar ! É aqui que reside, parece-me, a grande controvérsia atual e é também neste campo que a nossa função de professor tem um longo caminho a percorrer...
Para dar continuidade a esta perspetiva e aguçar a polémica, deixo como sugestão um vídeo sobre o conceito de multitasking ". Afinal de contas, estamos mesmo a perder qualidades ?
De
lpedro a 8 de Fevereiro de 2012 às 16:20
Olá a todos!
Envio também o meu comentário à pertinência do tema do vídeo apresentado. Sem dúvida que não podemos negar que estamos perante uma sociedade de informação e conhecimento. Cada vez mais a Internet é um espaço onde se concretizam importantes trocas de informações e comunicações, a partir das quais a nossa sociedade atual se constitui como uma complexa comunidade virtual de partilha de experiências, de conhecimentos a vários níveis: quer pessoal, cultural, social e profissional. De acordo com a minha experiência profissional no campo da educação, como nos são colocados novos desafios às nossas práticas letivas num contexto de sala de aula, saliento aqui também a importância da utilização da Internet e do seu equílibrio pedagógico no sistema educativo. Como em tudo, o que for utilizado em demasia pode acarretar problemas. Assim torna-se necessário repensar e refletir sobre a utilização de uma forma equilibrada da Internet no ensino aprendizagem dos alunos. Aliás porque estamos sempre a aprender com a Internet na medida que a mesma permite a utilização de dinâmicas de ensino, no meu entender mais motivadoras. Por exemplo, este tipo de experiência de ensino à distância que estamos a vivenciar no âmbito desta unidade curricular. Eu sinceramente não me estou a imaginar hoje em dia sem Internet! No meu entender, ela é "uma amiga", e ajuda-nos no fator tempo pois permite-nos num curto espaço de tempo a realização das mais diversificadas atividades. No entanto, o nosso problema como profissionais de ensino, é o arranjar de um tempinho para nos sentarmos à frente ao computador. Na minha opinião passamos a maior parte do tempo nas escolas. No contexto de trabalho permite-nos propor aos alunos situações de aprendizagem diversificadas, através das potencialidades das novas tenologias, quebrando as fronteiras espacio-temporais. Na minha disciplina, não muito motivadora para os alunos, a matemática, até a Internet ajuda. Hoje na aula de matemática vamos lá consultar a página do Brip da Porto Editora relativamente aos conteúdos previstos nesta aula; e como sugestão promover a pesquisa dos contributos de um determinado matemático na descoberta de determinados conceitos; numa outra aula: querem participar no concurso do Equamat e do Redemat da Universidade de Aveiro, então vamos lá treinar na aplicação respetiva, e muitas outras situações....
No entanto mais uma vez é necessário propor e utilizar esses recursos de uma forma equilibrada. Como professores temos o papel de mediadores junto dos alunos da utilização de uma forma benéfica da Internet mas por outro lado como educadores de sensibilizar os alunos para os seus perigos e desvantagens se esta não for utilizada de uma forma correta e responsável. Fora da escola, em casa, a família também têm um papel decisivo nesta parte devendo para isso controlar os seus educandos na sua utilização.
Obrigado.
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