Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

"A sala de aula interativa seria o ambiente em que o professor interrompe a tradição do falar/ditar, deixando de identificar-se como o contador de histórias, e adota uma postura semelhante a do designer de software interativo. Ele constrói um conjunto de territórios a serem explorados pelos alunos e disponibiliza coautoria e múltiplas conexões, permitindo que o aluno também faça por si mesmo. (...) O aluno, por sua vez, passa de espectador passivo a ator situado num jogo de preferências, de opções, de desejos, de amores, de ódios e de estratégias, podendo ser emissor e receptor no processo de intercompreensão. E a educação pode deixar de ser um produto para se tornar processo de troca de ações que cria conhecimentos e não apenas os reproduz" 

(Silva, 2002, in Materiais Didáticos, 2005, p. 60).

 

Nesta perspetiva, a formação de professores, além do domínio prático das tecnologias, deve orientar-se para a transformação das práticas pedagógicas, de modo a fomentar a criatividade, a colaboração, o espírito crítico e aprendizagens significativas. Como enquadrar nela a prevenção dos riscos e o aproveitamento das potencialidades das tecnologias digitais no desenvolvimento dessas práticas?

 

 

 




9 comentários:
De jesus-anabela a 21 de Fevereiro de 2012 às 19:20
Olá!

O excerto retrata a sala de aula como um ambiente de aprendizagem centrado no aluno. Julgo que todos nós devemos reconhecer as mais valias deste tipo de abordagens pedagógicas. Porém, e falo agora a partir de uma experiência prática com um projeto desenvolvido, em que tinha na sala de aula seis contextos de aprendizagem diferentes a serem desenvolvidos em simultâneo, posso afirmar que são torrenciais as solicitações dos alunos levando a que o professor se sinta muitas vezes impotente. Creio que tal também pode ser explicado pelo facto de os alunos revelarem muito pouca autonomia e não terem hábitos de trabalho por iniciativa própria. Mas creio também que é indicador de que outros fatores terão que ser revistos. Ou seja necessidade de alterações estruturais.
Daí Artur que o que sugeres para a formação dos professores me pareça bastante positivo. Encarar as tecnologias não como meras ferramentas de aprendizagem, mas como elementos de transformação quer da estrutura quer de formas de atuação.


De jesus-anabela a 22 de Fevereiro de 2012 às 19:08
Olá novamente!

Julgo que muito se poderia dizer sobre transformações das práticas pedagógicas, desde a disponiblização de recursos, a um apoio mais individualizado; do envolvimento dos alunos a abordagens pedagógicas com uma componente de personalização da aprendizagem; ou mesmo desde uma maior rentabilização do tempo a tecnologias como parceiras na execução de tarefas analíticas.

Porém, torna-se também necessário perceber de que forma os contextos sociais moldam o uso das tecnologias. Ou seja que condicionantes organizacionais, económicas, culturais e políticas entram em jogo quando se debate o uso das tecnologias na escola/universidade.


De fpcr a 24 de Fevereiro de 2012 às 23:11
Acho as ideias do 2º parágrafo bastante apropriadas, podiam ser escritas por mim. No entanto penso que é fundamental olhar aos contextos (idade, capacidades, interesses dos alunos, número de alunos por turma, etc). Uma boa ideia num lugar pode não funcionar noutro, isso acontece. Contudo, quando se fala em artes em geral (visuais, música, literatura, teatro, etc)as coisas só fazem sentido quando o fim último é algo significativo. Por exemplo um aluno pode aprender um conceito de geometria que no momento não lhe interessa nada, mas sabe que vai aplicá-lo numa fase seguinte, num trabalho significativo que o realiza como pessoa.
Quanto ao primeiro parágrafo para que o aluno passe a ser ator de ... precisa antes de ter um conjunto de "ferramentas" que lhe permitam desenvolver várias capacidades para o poder ser. Penso que uma pessoa só pode correr depois de saber gatinhar, manter-se erecto e caminhar. Claro que deve sempre ser visto como alguém com características únicas, em desenvolvimento, mas que necessita muito de auxílio para se poder construir. Sabemos que certas aquisições devem ser feitas em determinadas idades, como ler, por exemplo, e quando passa essa idade depois é muito mais difícil. Há muitos exemplos disto.
Para agir bem, com autonomia, responsabilidade, é preciso saber, ter consciência de..., e isso só se consegue com trabalho e estudo, ainda não há outra alternativa....


De artur-ramisio a 25 de Fevereiro de 2012 às 23:43
Viva!
Concordo plenamente com a necessidade de atender aos contextos e às especificidades de cada aluno. Sem isso temos os métodos antigos com o aluno a desempenhar um papel passivo no processo de aprendizagem, o que é completamente desajustado para a realidade presente.
No entanto, entre o discurso e a prática ainda vai uma distância considerável. Como bem dizes, entre outros aspetos, o número de alunos por turma tem muito a ver com o ser ou não possível atender às especificidades de cada aluno, pois quantos mais alunos a turma tiver e quanto mais turmas o professor tiver, mais este será compelido a olhar para o aluno médio, e este não existe, o que existe é o aluno específico, com as suas necessidades próprias. E isto é um ciclo: o aluno para o qual não há condições/sensibilidade/capacidade para ser compreendido no âmbito dos seus contextos, o seu interesse e gosto pelo trabalho e pelo estudo poderão não vir a ser despertados. Normalmente são os que pertencem às classes mais desfavorecidas. Já são muitos e tendem a ser cada vez mais. São os que são encaminhados para essa invenção chamada CEFs.
Por isso, a formação de professores é muito importante! Por exemplo, professores que: classificam os alunos de burrinhos sem se preocuparem em descortinar quem são; a medida imediata que propõem em conselho de turma para os alunos com mais dificuldades de aprendizagem é o seu encaminhamento para um cef; promovem e dão exemplos de competição e deslealdade no lugar de dar exemplos de solidariedade e profissionalismo; não dão exemplos de cidadania quando por medo não exercem direitos de cidadania, não estão a desempenhar bem o seu papel, por muito competentes que sejam nas áreas de ensino que ministram.
Um professor que não tenha um olhar crítico para a forma como funciona o sistema não me parece que esteja a desempenhar bem o seu papel. Se não tem uma visão crítica e se não é coerente com essa visão, não pode ser capaz de promover espírito crítico. E aprendizagens significativas de quê?


De Rui Soares a 25 de Fevereiro de 2012 às 00:44
Bem, vou correr o risco de ser algo demolidor.
Pelo que me tenho apercebido nos dois últimos anos, o problema com a formação de professores não se restringe ao desequilíbrio tecnologia/saberes didáticos. É algo muito mais profundo. A percepção que criei neste período de tempo foi a ocorrência de deficiências graves nos dois campos: tecnologia exclusivamente usada para apresentações digitais (sem qualquer criatividade); práticas transmissivas focadas para a quantificação e medição de saberes individuais (cognitivos, claro!!!). Não vou falar dos saberes científicos...


De regina-canelas a 25 de Fevereiro de 2012 às 12:31
Viva!

Infelizmente, sou obrigada a concordar contigo, Rui. Diria até que as falhas na formação de professores acontecem há bem mais tempo, mas talvez, agora, sejam por demais evidente. Não vou falar dos saberes científicos, porque haveria muito para dizer, mas, no caso, nem é o mais importante.

Quanto às práticas didáticas, como dizia a Anabela, todas têm as suas mais-valias e talvez as transmissivas até sejam adequadas a determinado grupo de alunos. O problema surge quando o professor não sabe ir para além disso. Claramente, hoje, queremos colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem (também no Ensino Superior, com o processo de Bolonha, isto está a acontecer). No entanto, como alguém dizia ontem no seminário (tanto input que já não sei quem), a tendência de qualquer professor que esteja a iniciar-se nesta profissão é copiar as práticas que vivenciou enquanto aluno e que, com certeza, funcionavam muito bem décadas antes, mas que agora podem/devem ser substituídas por práticas atuais, ou seja, adequadas aos alunos de hoje. Pensando naqueles que formam professores, falamos aqui de um assunto complicado, imagino. Quando fiz o meu estágio, ninguém me disse qual era a “fórmula secreta” para dar aulas, porque não há uma. Obviamente, segui os modelos que conhecia e que me pareciam corretos, fui ouvindo o feedback das orientadoras e tentando corrigir alguns aspetos. Ao longo do tempo, vamos observando colegas, partilhando experiências, pedindo opiniões e alteramos as nossas práticas. No caso dos professores, se calhar mais do que em qualquer outro caso, a aprendizagem deveria manter-se ao longo da vida.

Quanto ao domínio das tecnologias, também verificamos muitas falhas. Infelizmente, o plano curricular do meu curso (Ensino de Inglês) incluía apenas uma disciplina sobre tecnologias educativas. Para colmatar esta falha na minha formação, sempre fiz cursos de formação, fui autodidata, mais tarde fiz um curso de pós-graduação. Claramente, as tecnologias não são a solução para todos os nossos problemas (nas escolas), porém podem ajudar a alterar práticas. Como dizia o professor Francislê ontem (agora lembro-me quem foi), temos de trabalhar sempre a pensar nos (nossos) alunos, que, hoje em dia, trazem a tecnologia no bolso. Vamos aproveitar isso!


De carlaponte a 27 de Fevereiro de 2012 às 01:15
"E a educação pode deixar de ser um produto para se tornar processo de troca de ações que cria conhecimentos e não apenas os reproduz."

Penso que é aqui que reside a problemática na educação e é aqui que também a tecnologia, usada de forma crítica, pode fazer a diferença. O grande problema que hoje em dia se vive nas escolas nem é tanto o acesso ou não à tecnologia, embora possa ser considerado um factor importante a contemplar. A questão umbilical é mesmo o paradigma educativo. Com ou sem tecnologia, continuamos a vivenciar um sistema endémico na educação, que não se compadece com o avanço tecnológico , nem com as alterações sociais. O fosso que ainda se vive entre o que se preconiza e estimula na teoria (práticas quiçá de índole já mais construtivista e conetivista) e o que vem a ser contemplado depois em momentos formais de avaliação final é grande. Continuamos a insistir na reprodução de conhecimentos e não na sua criação, por falta de uma alteração estrutural profunda no sistema educativo. Acredito que, por mais boa vontade que haja por parte dos professores em tentarem ajustar-se aos tempos atuais, não há tecnologia que possa ser utilizada para aprendizagens significativas enquanto não se aferirem aspetos de natureza paradigmática. Ou melhor,a tecnologia ser utilizada para potenciar situações de aprendizagem significativa até pode, o problema surge quando essas mesmas aprendizagens, por derivarem de processos e não de produtos, não "encaixam" no modelo de avaliação instituído...


De lpedro a 27 de Fevereiro de 2012 às 23:32
Correndo o risco de ser polémico e injusto ( e sublinhado o facto de estar a comentar apenas um parágrafo de uma obra que não conheço), tenho que confessar que a utilização da expressão "materiais didáticos" no título é perigosa. A minha tese de doutoramento é de 2005 e é precisamente sobre a construção de materiais didáticos por recurso a uma dada ferramenta. Já na altura havia evidências que a maioria dos materiais didáticos tendiam a ser materiais de ensino e não materiais de aprendizagem. Vá lá, não me puxem pela língua :)


De artur-ramisio a 1 de Março de 2012 às 00:16
Viva!
É verdade que a didática se pode sintetizar como sendo a arte de ensinar, mas é evidente que quando hoje falamos em "ensinar" tendemos a ligar este conceito à transmissão de conhecimento, em contraponto com aquilo a que chamamos construção do conhecimento. No entanto, o entendimento da didática como a arte de ensinar contém em si o ensinar o quê e o modo de o fazer, e este modo de o fazer pode e deve ser entendido (e praticado) como um desafio que o professor tem pela frente em cada momento para tornar eficaz a arte de ensinar, ou seja, além de arte é também ciência de ensinar, na medida em que implica colocar o aluno no centro do processo, envolvê-lo na sua própria aprendizagem. E é nesse entendimento que os "materiais didáticos" podem ser assim chamados. Desde que sirvam para tornar atrativa, significativa e eficaz a aprendizagem, cumprem o seu papel como material didático, ou seja, material ao serviço da arte-ciência de ensinar.

Provérbio chinês:
"Diz-me e eu esquecerei
Ensina-me e eu lembrar-me-ei
Envolve-me e eu aprenderei"


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